Ritos e Ritual

“O objetivo das Disciplinas é o livramento da sufocante escravidão ao auto-interesse e ao medo”.
Richard Foster
Esta manhã, dizia a Dedé sobre o tamanho do meu orgulho. Somos brasileiros, a maioria de nós descende de imigrantes europeus ou asiáticos mais o resultado da miscigenação que inclui índios e negros. Essas são as cores determinantes do tom vermelho do nosso sangue. Nossa origem inclui histórias de pobreza e uma dureza danada no inicio de tudo. Mas, apesar disso, não desenvolvemos a humildade. Sou um exemplo cristalino dessa verdade.
Madre Tereza de Calcutá nasceu na Albânia e só chegou à Índia adulta para dirigir a pastoral da pobreza. Deu muito ao povo indiano, mas recebeu deles algo de valor inestimável: a humildade. Tornou-se famosa por estampar, em seus atos, todos os atributos dessa senhora rara. Nos tempos de sonho, quando ousei me imaginar missionário, planejei ir à Índia. Não me passava pela cabeça aprender nada com aquele povo exótico. Naquele tempo acreditava em tolices como a evangelização da humanidade e, para mim, aquela gente atrapalhava pacas.
Aos poucos, fui aprendendo sobre eles, a começar do Mahatma Gandhi e depois sobre a cultura, a estrutura social (As castas) as religiões até o Bhagavad Gitã e suas práticas intensas e constantes. Sem nunca ter ido às terras indianas mudei de opinião. A tal ponto que, certa vez, ao ouvir de um aluno, com imprudência suficiente para freqüentar minhas aulas de missões, sua intenção em exercer ministério naquelas paragens e pedir minha opinião sobre tal, disse-lhe: Não sei se temos algo a ensinar para aquele povo.
Não ter ido a Índia está me fazendo muita falta. Talvez esse seja o motivo para Deus brincar comigo a fim de quebrar meu orgulho. Coisas como mendigar, suportar humilhações, preterimentos, etc., são minha praia atual, e nada me faz mais infeliz. Bom, pelo menos, o magnânimo conseguiu me fazer admitir que sou mesmo um baita orgulhoso, agora , gostar da humildade ainda não deu, nos outros, tudo bem. Nem sei se ele faz bem em continuar com essa bobagem. Talvez seja uma causa perdida.
Entretanto, como o Pai de Jesus é suficientemente insistente e você eu sabemos disso, minha missão pastoral continua dentro do prazo de validade. A última de Deus é sua expressa determinação para os seus adeptos voltarem a praticar todos os rituais e ritos inclusos na senda cristã. A começar dos pessoais, tais como nos ensina o Foster (teve gente que não gostou de minha apologia ao livro, dias atrás) ou seja, meditação, oração, jejum, estudo, simplicidade, solitude, submissão, serviço, confissão, perdão, adoração, orientação e celebração, passando depois para o ritual e os ritos na igreja tais como a eucaristia (ceia), pregação, contribuição, batismo, casamento e a despedida.
Lembra o velhinho da passagem de seu filho pelo planeta e de como fez uso insistente dos ritos. Viveu uma vida em intensa prática deles, até na morte não se furtou em praticá-los. Subia aos montes para orar, isolava-se no deserto a meditar, era humilde, simples, generoso, perdoador e submisso. Nunca abandonou os ritos na igreja, onde festejava os dias e momentos santificados, sempre se destacando pela ousadia e submissão. Dizem que C. S. Lewis, durante anos, visitava a igrejinha local em dias de ceia a fim de praticá-la, embora o fizesse de maneira discretíssima.
Tudo isso tem um propósito muito alem de trazer o povo de volta a algum tipo de religião ou religiosidade. Deus quer nossa liberdade e, paradoxalmente, entende que ritual e ritos disciplinadamente são o caminho que nos livrará da escravidão propiciada por nosso desvio da dependência libertadora dele, como forma emergente e pós moderna.
Cabanada
Como o Adiron e eu estamos fartos de toda essa cabanada dos últimos dias, digo, posts, resolvi, com anuência de todo o conselho de sábios da Gruta, seguir o conselho do Fábio e abrir a Gruta a todos os desvalidos, ou seja, além de todos nós, homens e mulheres em aperto, endividados, amargurados, estressados, cultos, etc., estamos incluindo os participantes da Cabanada: jacuípes e papaméis.
O objetivo é ficar com a nossa Gruta e nossas grutagens e deixar A Cabana e suas heréticas posições conservadoras para lá. Afinal, Deus também fala com nossos personagens, com vantagens, pois quando está muito ocupado envia anjos, coisa ignorada pelo excomungado (Segundo o Mark Driscoll) do Willian P. Young. Melhor deixar esses gringos pensando que são os reis da cocada preta. Quando eles acordarem, estaremos ditando as normas da Igreja, inclusive da nossa. Basta mirar nossos atuais líderes e seus debates maravilhosos, enquanto falam e se jactam, as almas estão caminhando a passos largos para o inferno. Mas qual a importância disso?
Para evitar que você tenha o trabalho de descobrir no São Google do que estamos falando, encurtei o caminho para você e tasquei a explicação toda aqui. Leia se tiver saco. Desculpe, paciência é mais fino. Descubra essa pérola de grande valor que foi a Cabanada com seus jacuípes e papaméis liderados pelo famoso Vicente de Carvalho, aquele dá nome a alguma rua em todas as nossas cidades e que foi o nosso Davi tupiniquim, para espanto das Américas. O Adiron é um professor como poucos e tem me obrigado a ceder a essa horrorosa prática de aprender algo mais, mesmo quando já imaginava saber tudo. Se você tiver dúvidas, inclua o blog dele (Mens insana in cor sano) em sua via sacra, digo, blogal diária, se ainda não o fez. Assim você entrará para o rol dos eternos aprendizes, como eu fiz. Veja lá:
Cabanada foi a rebelião ocorrida no Brasil entre 1832 e 1835, iniciada logo após a abdicação de Dom Pedro I, ou seja, no período da Regência. Dificuldades financeiras do novo Regime, com o comércio exterior quase estagnado e a queda das cotações do algodão e da cana-de-açucar, além do privilégio aduaneiro à Inglaterra, em vigor desde 1810, fizeram com que eclodissem diversas revoltas no Império do Brasil nesse período.
O movimento da Cabanada se deu em Pernambuco, Alagoas, e Pará, porém são insurreições diferentes e em locais diferentes. A primeira se trata da revolta em Pernambuco e Alagoas e a segunda na região do atual Pará.
Em Pernambuco, onde também foi chamado de “A Guerra dos Cabanos”, a rebelião foi conservadora pois pretendia a volta do monarca português ao trono do Brasil (para alguns historiadores, uma pré-Canudos). Desenrolou-se na zona da mata e no agreste. Teve como líder Vicente de Carvalho, com seguidores de origem humilde, predominando índios (jacuípes e outros) e escravos foragidos (chamados de papaméis).
Com a morte de Dom Pedro I em Portugal (1834), o movimento deixou de ter razão de existir, e em uma Conferência de Paz com participação do bispo Dom João da Purificação Marques Perdigão, a rebelião terminou.
A insurreição da Cabanagem no Pará foi mais grave, pois foi nacionalista e queria a independência da província. Durou cerca de 5 anos, pacificada pelo Marechal Soares de Andréa, o barão de Caçapava, a custa de vários conflitos sangrentos e execuções dos insurretos.
Fonte: Wapedia
Enfim, a Gruta não é nenhuma academia, mas tem seus momentos, principalmente pela excelente participação de seus leitores e amigos.
OPS: Antes que alguém venha com a gracinha, também não faço a menor idéia do por que da presença da Liz Taylor na foto. Como a carinha sapeca dela é um brilho só, achei por bem deixá-la. Mal não faz. Mas clicando na foto você desaguará no blog original e poderá fazer a perguntinha indelicada lá. Aproveite para saber mais sobre a Cabanada. Esses caras precisam saber quem manja de cabana, de verdade.
A Cabana em debate
Não estava pensando em divulgar esse acontecimento, mas ao ler o blog do Alex Fajardo, essa manhã, resolvi fazê-lo, afinal não tínhamos um Alex presente em nosso evento. Agora, a coincidência de fatos me animou sobremaneira.
Fotos não temos, será um relato no gogó, digo na pepe, ou seja, na arte dos meus dedos. Bem que Deus me disse: Do trabalho de suas mãos viverás.
A narrativa
Meu amigo, quase único, fora ele devo ter mais dois ou três, Pr. Neto me convidou para debater sobre o livro A Cabana, na noite de segunda-feira dia 27 de abril, lá na Igreja Deus é Fiel onde ele pastoreia. É uma Igreja imensa. Sentados, devem caber umas quarenta ou cinqüenta pessoas, se apertarmos bem as cadeiras, tipo avião da Gol ou LAM (Linhas Aéreas Moçambicanas). Os irmãos freqüentadores são idosos e gente classificada como classe C ou D. Quando o Pr. Neto pediu para levantar a mão quem dentre os doze presentes havia lido o livro, não houve um braço erguido, sequer.
Além de minha auspiciosa presença, afinal estou trabalhando na sala acima do salão desta magna igreja e foi fácil me convencer a participar, principalmente depois dele garantir a pizza depois da contenda, fez parte do nosso estrondoso debate o Pr. João Ibitirama, muito conhecido nos segmentos mais, digamos, populares da nação cristã evangélica. Como a maioria dos nossos leitores pertence às classes mais privilegiadas, creio ser importante descrever o currículo do meu oponente, já que o Pr. Neto funcionou como mediador, apenas. O Pr. Ibitirama é daqueles irmãos incapazes de ler qualquer coisa além da sua própria bíblia, um tanto gasta, diga-se de passagem. Suas botas, aquelas estilo caipira com elástico do lado, para entrar nos pés mais fácil, e sola de pneu, costumam trazer resíduos visíveis do barro das favelas onde costuma evangelizar, ajudar, envolver-se e levar umas facadas, marcas que ele traz pelo corpo. Fora isso, seu currículo não traz mais nada. Nunca fez qualquer curso, seja de alfabetização, bíblico e muito menos acadêmico. Aprendeu a ler de orelhada, como costuma dizer. Preferiu não casar, pois entendeu que não poderia submeter mais ninguém ao seu modo de vida miserável, prudência a qual não fui capaz de imitar, devido ao meu proverbial egoismo. Reside nos fundos da casa da Irmã Mariazinha, nossa profeta emérita, em um canto que tem paredes de alvenaria de um lado e de outro papelão e tabuas bem amarrados com corda velha. Não há mais nada a dizer dele, a não ser, que essa foi a sua primeira vez como debatedor. Ah! Lembrei, ele costuma fazer algumas preleções no centro da Praça da Sé, onde fica até ser retirado pela polícia ou perseguido pelos pivetes em busca de seu único bem, um relógio paraguaio legítimo.
O Pr. Neto abriu os trabalhos perguntando ao Pr. Ibitirama se ele havia lido o livro tema do debate. A resposta resumida foi:
- Não. A única cabana que conheço é aquela onde nasci e me criei no agreste.
O mediador agradeceu a sinceridade e acrescentou: Fique tranqüilo, pastor, além da nossa Platéia e do senhor, eu também não li o livro. Aliás, nem sei onde poderia adquiri-lo. Talvez leia um emprestado. Falou me olhando de soslaio.
Nessa altura, certo de que seria o próximo a ser indagado, já decidira mentir. Não admitiria ter lido o livro e gostado para não constranger aquela gente boa e, talvez, preservar minha integridade física e moral. Nunca se sabe o que uma platéia dessas é capaz de fazer. Mas caí do cavalo quando, perplexo, ouvi as palavras do Pr. Neto em minha direção:
- Bom, mas aqui ao meu lado direito está o Lou, que já foi missionário, esteve na Albânia quando o regime político lá não dava liberdade religiosa ao povo, na África, particularmente em Moçambique quando o regime era marxista sob a mão de ferro do ditador Samora Machel e como diretor de creches em favelas paulistas. Ele é o único dentre nós todos que leu A Cabana e, certamente, contribuirá cem por cento em nosso debate.
A coisa funcionou assim, cada pessoa da platéia fazia uma pergunta que eu devia responder primeiro e o Pr. Ibitirama a seguir. Como só eu lera o livro, minha tarefa era descrever o texto incluso por William P. Young naquelas páginas, para o excomungado do Ibitirama avacalhar com tudo, a seguir. Foi assim durante longas doze questões. Expliquei, o melhor que pude, a trindade, ocasião em que o maldito exclamou: E eu nem sabia que havia mais de um Deus! Sempre achei mesmo estranho Jesus chamar Deus de pai. Para mim, Jesus, Deus e o Espírito Santo era tudo igual. Depois narrei a questão do sofrimento descrita pelo Willie e o dileto contendor observou: Você não quer sofrer? É fácil. Abandone a Cristo. Em Gálatas Paulo explica a razão: Cristo em vós a esperança da Glória. Não Cristãos podem sofrer, também, mas com Cristo o sofrimento é liquido e certo. Nosso tempo de refrigério se dará em outro mundo, onde só se entra com as marcas da cruz nos ombros. E arrematou: Como disse Jesus, “nesse mundo tereis aflições”.
Em minha última intervenção aproveitei para lembrar que o livro era mesmo uma grande porcaria, para fazer uma média Cult, talvez não devêssemos nem chamá-lo assim, mas a maioria já havia deixado o recinto e os poucos ainda presentes dormiam o sono dos anjos e isso não teve a menor importância.
Não creio, gostaria mas…

“Se alguém me provasse que Cristo não estava na verdade [...] então preferiria permanecer com Cristo a permanecer com a verdade”.
Dostoievski citado por P. Yancey em “O Jesus que eu nunca conheci”
Dostoievski era outro grande fanfarrão. Ele nunca cumpriria uma promessa dessas, nem mesmo se o próprio Deus Pai em pessoa lhe provasse o desvio do Filho único. Como eu faria, ele jamais se desviaria da verdade. Afinal, quem é Jesus diante da verdade?
Bom, se ele faria ou não, pouco me importa. Não acredito nele, assim como não acredito ou sequer cogito da possibilidade de Jesus não conter a verdade. O cara pode escrever bem, ter escrito os Irmãos Karamazov e Crime e Castigo, não interessa, hoje mais do que nunca, fico com Cristo, mesmo que isso me custe a verdade ou mais. Além do mais, a verdade é mais uma dessas bobagens relativas. Trouxas somos nós com essas tolices nada práticas. Veja como o escritor russo foi mais esperto. Sou mesmo um bobo alegre ou nem tanto. Mas amanhã voltarei a ler os livros dele. Hoje preciso estar com Jesus Cristo.
Na verdade mesmo, precisaria passar muito tempo com Jesus e sua verdade para chegar ao ponto de confiar nele e nela totalmente. Seria necessário muitas grutas e muitas cabanas para chegar a ser convencido. Se há uma verdade em mim, é o fato de não acreditar completamente, nem em Cristo e nem na verdade. Claro, ando como tal, falo com tal e escrevo como tal. Mas não sou confiável. Quando olho no espelho vejo um traidor falso e hipócrita. A única oração possível para um crápula como eu seria: Deus ajuda-me a crer. Se ele tiver bom senso, não me atenderia nunca.
A Gruta e o sonho

Creio ser o sucesso do livro A Cabana bastante previsível e não tenha ocorrido por acaso. Quem não gostaria de chegar na Gruta e passar um fim de semana inteiro falando com a Trindade toda? Especialmente se o interesse dela fosse você e seus problemas, apenas. Não acredito nessa possibilidade, no meu caso. Gostaria, mas não consigo imaginar um Deus, por mais bondoso que seja, se dar a esse trabalho por um picareta subdesenvolvido e feio feito eu.
Talvez você goste de saber a respeito de um sonho meio megalomaníaco que acalento há muitos anos. Provavelmente ele morrerá comigo sem nunca ter se tornado realidade, se não for uma certeza absoluta.
Passei muitas horas dessa vida bandida imaginando um lugar, provavelmente junto ao mar, onde as pessoas pudessem passar algum tempo, como um fim de semana, e ali reorganizassem suas vidas, recebessem muito carinho, atenção e fossem paparicadas até. Todo mundo vestindo aquelas togas brancas ridículas que nos obrigam a usar no batismo, recebendo chuvas de rosas após o jantar e muito, muito papo com Deus. Nada de pregações e discussões em pequenos grupos e as idiotices psicológicas de sempre. Para ouvir a Deus é preciso silêncio, muita música clássica composta em êxtase espiritual e a brisa do mar. No máximo, um monitor ao lado para orientar e ouvir suas lamurias. Orações, muito arrependimento e sorrisos. Geralmente me via nesse sonho fazendo um monte de palhaçadas, (stand up ) para fazer os caras morrerem de rir. Isso faz um bem danado. Fora isso, muita comida caseira, suco natural e até um vinhozinho à noite para ajudar a quebrar a inibição e combater os radicais livres. Na hora de ir embora, todo mundo chorando, muitos abraços e beijos.
Sou patético ou não? Aqui, sem lenço e sem documento e pensando em fazer bem a um bando de gente que nunca vi e jamais verei. Mas isso é a Gruta. Davi, aquele amigão de Saul, não planejou nada. Entrou na gruta para não virar mulherzinha dos soldados de seu grande amigo e sogro. Mas como tinha nascido virado para a lua, atrás dele entraram aqueles quatrocentos vagabundos endividados e se tornaram seus seguidores, prontos a morrer por ele, sem nada pedir em troca. Não é o nosso caso. Aqui ganhamos muito, mas o que tem de gente querendo nos tirar até o que não temos, não é brincadeira. Afinal somos uns párias. Claro que falo por mim.
Nós não faremos sucesso e muito menos seremos um exército capaz de derrotar sequer uma mosca, quanto mais essa gente prepotente e egoísta que nos fez assim. Mas ninguém poderá nos impedir de sonhar com uma Gruta verdadeira.
Propaganda, poderes e potestades
“A propaganda nas igrejas é, sob vários aspectos, semelhante à utilizada pelos comunistas, pois apresenta às pessoas um sonho falso, que não reconhece a existência do sofrimento, da humanidade pecaminosa, dos perigos do sucesso também falso e se esquece do alto custo do discipulado.”
Marva Dawn em O Pastor Desnecessário, escrito em parceria com Eugene Peterson, citando seus estudos sobre a obra de Jacques Ellul
Quando trabalhei em um laboratório, como propagandista aprendi muito, coisas boas e outras nem tanto. Entre elas, me ensinaram o que chamavam de propaganda ética, um artifício pelo qual os laboratórios se comprometem a não fazer propaganda de seus medicamentos pelos meios de comunicação, dando aos médicos o privilégio do receituário. Os deuses de roupa branca, em contrapartida, se comprometem a receitar os medicamentos não propagados. Isso evita a automedicação e garante aos profissionais da medicina a exclusividade na arte do curandeirismo.
Do outro lado, os medicamentos conhecidos pela população não precisam de propaganda, pois todo mundo os conhece. Basta ir à farmácia mais próxima e adquiri-los. Geralmente, eles dispensam receitas. A receita não é uma defesa do cidadão como pensam os incautos, ela defende o médico e seu trabalho. Já imaginou se não houvesse essa obrigatoriedade? Estariam ferrados. Se bem que nos países menos desenvolvidos as farmácias sacaneiam bem os deuses da cura, enquanto nos países mais desenvolvidos é quase impossível adquirir um medicamento específico sem a receita de um deus médico.
O que o Ellul profetiza, segundo a Marva, em relação à propaganda, é o fato dela ser um dos tais “principados e poderes” do nosso mundinho atual. Nossos pastores também buscam vender a idéia de sua imprescindibilidade, tanto quanto os médicos, advogados e psicólogos. Como se não pudéssemos viver sem esses crápulas.
Na verdade, todos fazem a mesma coisa, até os professores de educação física com viés para a administração de organizações não lucrativas e metidos a consultores de ONGs. Todo dia inventam uma formação obrigatória para tanto. De tal forma que mestrado e doutorado caíram em vala comum. Agora é preciso pós doutorado e amanhã virá o pós pós doutorado.
Pouco tempo atrás, conheci uma jovem em uma igreja onde fui devidamente menosprezado, como sempre, que não sabia nada sobre Desenvolvimento (Captação de Recursos e Comunicações) e vivia me abordando em busca de dicas capazes de ajudá-la em seu trabalho na área. Nossas poucas conversas sobre o assunto foram difíceis, pois precisava recitar o beabá da coisa para ela, o tempo todo. Bom, agora ela é a catedrática de uma grande escola de formação superior na matéria. Das duas uma, ou ela é um gênio mil vezes superior ao tolo do Eistein ou uma tremenda enganadora, para não dizer uma legítima representante dos Poderes e Potestades. Tudo bem, ainda tenho esperanças de salvá-la.
A conclusão me parece obvia, o que é bom e funciona já é conhecido. Jesus vivo fugia das multidões que teimavam em segui-lo. Morto, conseguiu mais adeptos do que a matemática conseguiria registrar. Bastou um sermãozinho conservador, em um monte qualquer e uma morte exótica para tanto.
Deus seria uma Bolsa de Valores
“Temos indicações muito claras de que, na vida cristã, o dinheiro é ganho a fim de ser dado.”
Jacques Ellul em “Dinheiro e Poder”,
citado por Richard Foster em “Dinheiro Sexo e Poder”
Estou em Sao Paulo, nossa Meca do dinheiro, enquanto escrevo esse post. Minha sensação, enquanto espero ser atendido por um amigo e irmão cristão, e meio pessimista quanto ao número de pessoas que concordam com o Ellul. Talvez seja melhor fazer alguma coisa a respeito.
Tempos atrás, era a igreja o lugar onde as pessoas eram discipuladas para a contribuição. Agora elas investem em Deus. Isso pode ser uma tragédia para um povo que nunca chegou a assimilar, em sua cultura, o valor da contribuição ou alguma insanidade feito essa do Ellul.
Uma vez um taxista me levou até à minha Igreja. No trajeto ele me narrou a história de sua família, especialmente como seus filhos formaram-se na faculdade, graças ao seu taxi. Na porta, enquanto separava o dinheiro para pagar a corrida, ele perguntou:
- O Senhor dá dinheiro para essa igreja?
Respondi que sim. Então ele emendou:
- Eu não daria um centavo a essa gente.
Não formate sua HD

Sou radicalmente contra a formatação de HDs.
Você dirá: Lou, não se começa um texto pelo fim, ou melhor, evidenciando a sua conclusão.
Sim, sei disso. O método ideal é enunciar a proposição, fazer uma introdução robusta, daquelas capazes de acorrentar a vítima ao texto, então entrar com o corpo ou o assunto propriamente dito e, finalmente, matar a charada com seu Gran Finale ou seu exórdio, poslúdio, o que seja.
Entretanto, nesse caso, prefiro ir direto ao ponto: “HDs não devem ser formatadas”.
Poderia fazer agora uma longa exposição técnica sobre os malefícios causados nas HDs quando elas são formatadas. Mas isso seria chatíssimo de ler e também de escrever. Mesmo porque, esse blog não é nada adequado a esse tipo de explicação tecnológica. Mas para o perfil de leitores como você, interessado mais nas coisas espirituais em estilo meio avacalhado, como é o meu, para não dizer rebelde e irreverente, isso não acrescentaria quase nada.
Talvez você aprecie saber algo como: Há um limite para formatar sua HD e ele varia de HD para HD. Algumas suportam várias formatações e outras poucas ou mesmo uma ou duas.
A opção pela formatação se dá pelos piores motivos possíveis, geralmente: pressa, preguiça, picaretagem, etc. Dizem, não sei, serem, os formatadores compulsivos, ejaculadores precoces, todos. Quando eles terminam de gozar com sua formatação precipitada, sobram uma HD murcha e uma máquina insatisfeita, sem falar na importante redução da vida útil da HD.
Dizem, de forma muito suspeita, serem os pastores, em sua grande maioria, todos uns tremendos formatadores. Adoram formatar todas as suas ovelhas. Discipulado, ensino, paciência, longanimidade, solidariedade, generosidade e amor ao próximo não faz parte da cartilha desses caras.
Quando você está diante de uma HD com problemas, salvo os casos de hardware defeituoso, é preciso jeito. Primeiro uma boa inspeção investigativa das causas do (s) problema (s), até a obtenção de um diagnóstico seguro. Então, você começa o movimento em busca da eliminação deles, um a um. Isso pode ser um processo muito lento. Algumas HDs chegam ao gabinete pastoral, digo, oficina de micros, extremamente machucadas por dentro. O final do conserto só acontecerá quando o último problema for sanado.
Será sempre uma questão de jeito, amor ágape, carinho e dedicação. Como diz o Eugene Peterson, os formatadores são desnecessários.
Deus e a Trindade
A Trindade:
O Novo Testamento não contém a doutrina desenvolvida da trindade. “Falta, na Bíblia, a declaração expressa de que o Pai, o Filho, e o Espírito Santo são de essência igual e, portanto, num sentido igual, o próprio Deus. Falta, também a outra declaração expressa de que Deus é Deus assim, e somente assim, i.é. como o Pai, o Filho e o Espírito Santo. Estas duas declarações expressas, que vão além do testemunho da Bíblia, são o conteúdo duplo da doutrina da Igreja acerca da Trindade”.
Karl Barth
Quando dava aulas em seminários, costumava fazer uma série de pegadinhas estratégicas com meus alunos, com a finalidade de conseguir algo muito raro, fazê-los pensar. Uma delas consistia em desenhar um triângulo eqüilátero (Ângulos congruentes) no quadro. No vértice superior Escrevia: Deus Espírito, no inferior à direita: Deus Pai e no inferior à esquerda: Deus Filho. Sentava em minha cadeira e fazia a chamada. Depois aguardava até algum aluno manifestar-se. Quase sempre, alguém dizia: “Professor, a figura aí está errada. Deus Pai deveria estar em cima, Deus Filho na parte inferior à direita e Deus Espírito na inferior esquerda”. Então fazia pose de pensador e ficava olhando o triângulo fixamente e depois perguntava por que. A resposta era sempre a mesma: “Porque o Deus Pai é superior ao Deus Filho que é superior ao Deus Espírito”. Sei, e onde está escrito isso? Perguntava com cara socrática.
Interessante a figura criada por Willie em A Cabana com Papai, Jesus e Sarayu, representado a trindade Deus Pai, Filho e Espírito Santo. Vozes levantaram-se, especialmente entre os dignos representantes da ortodoxia fundamentalista reacionária, onde se destaca o quase emergente Mark Driscoll, que de emergente só tem as calças de caipira lançadas no mercado pelo Manning. O cara é mais radical de direita do que o Tonicodemus.
Isso é engraçado, se não for trágico. Para mim, enquanto lia interessado, sobretudo para saber onde aquilo tudo iria dar, aquelas três figuras de Deus me faziam lembrar as tantas e tantas formas encontradas pelo Criador para manifestar-se à sua criação. Até na Bíblia podemos encontrá-las. Além de figuras humanas múltiplas, ele também aparecia para suas vítimas em formas diferentes como fogo, vento e brisa. Certa vez incorporou em uma mula para se fazer entender ao obtuso Balaão. Oh! Deus na forma de uma mulher negra? Jamais! Na forma de uma mulher asiática meiga? Nem pensar! Deus é macho tche!
Se eles soubessem que Deus é o professor de balé do Willie, ficariam horrorizados. Mas aqui na Gruta, Deus pode ser um senhor com cara de Lord Inglês ou um vendedor de pamonhas nordestino. Tanto faz. Como diz o Willie, suas opções dependem do freguês porque ele não busca os interesses próprios, mas os do próximo afim de estabelecer relacionamentos sadios e profundos.
Então, qual é a maneira correta de incluir Deus no Triângulo acima?
A Celebração da Disciplina autêntica

Cerca de um ano atrás, a Editora Vida promoveu um encontro destinado a exaltar o livro A Celebração da Disciplina e seu autor Richard J. Foster, um Quaker respeitadíssimo por seus escritos e vida cristã impecável. A mesa foi formada por três oradores de peso, entre eles, o peso pesado Ed Rene Kivitz. O eficiente repórter Alex Fajardo registrou tudo. Inexplicavelmente, e para desespero da Editora Vida, embora tenham feito ousadas asseverações, nenhum deles falou sobre o livro e muito menos sobre o Foster, ninguém confessou não ter lido o livro em epigrafe ou qualquer outro do mesmo autor, muito menos.
Ao contrário deles, o próprio Foster, nesse mesmo livro, recomenda a leitura de alguns livros básicos, a quem está envolvido e interessado no discipulado cristão, sendo humilde o suficiente para não incluir nenhum de seus escritos, que recomendo enfaticamente. Eis a lista nas palavras do próprio Foster:
“Alem de Estudar a Bíblia, não se esqueça de estudar alguns dos clássicos experienciais da literatura cristã. Comece com as Confissões de Agostinho. A seguir volte-se para a Imitação de Cristo de Thomas de Kempis. Não negligencie The Pratice of the Presence of God (Prática da Presença de Deus), do irmão Lawrence. Para maior prazer, leia The Little Flowers of St. Francis (As florezinhas de S. Francisco), pelo irmão Ugolino. Talvez a seguir, você desejasse algo um pouco mais pesado, como os Pensamentos de Blaise Pascal. Desfrute de Table Talks (Conversas à Mesa) de Martinho Lutero, antes de entrar na Instituição da Religião Cristã de João Calvino (As Institutas). Considere a leitura do pioneiro na escrita de diário religioso, The Journal of George Fox (Diário de George Fox), ou talvez o mais conhecido Diário de João Wesley. Leia com atenção A Serious Call To a Devout And Holy Life (Apelo a uma Vida Devota e Santa), de William Law (as palavras dessa obra trazem um tom contemporâneo). De autores do século vinte, leia A Testamento of Devotion (Testamento de Devoção), por Thomas Kelly, The Cost of Discipleship (O Custo do Discipulado), por Dietrich Bonhoeffer e A Essência do Cristianismo Autêntico, de C. S. Lewis.”
Em a Celebração de Disciplina, a disciplina do estudo págs 91 e 92, Editora Vida
Provavelmente, se estivesse lá, faria um resumo biográfico e bem humorado do Richard J. Foster e depois entregaria uma cópia dessa lista aos participantes. Sobre minhas idéias e bobagens escritas ou faladas manteria silêncio obsequioso estrito. Por outro lado, uma participação minha em um evento dessa natureza é uma hipótese impossível, por motivos óbvios.
Claro que essas indicações parecem ser coisa do outro século. Hoje estamos mais afeitos a Manning, Yancey, Nouwen, Ellul, Young, etc. Nada mal, mas temo que o Senhor diria, a essa altura, leia esses sem omitir aqueles outros indicados por Foster. De qualquer maneira, se você tiver dificuldades para executar essa lista, recomendo a leitura pura e simples de A Celebração da Disciplina de Richard Foster, ED. Vida.
